Tem muita gente que já viu leão pelo sertão, mas disse que era suçuarana pra não ficar com fama de louco ou de mentiroso. Tinha pelo menos uns quatro entre Juazeiro e Paulo Afonso, tudo solto. Fugido de circo, comendo cabras e cobras. Corcova era um deles.
Zé Miúdo era grande, se virava de qualquer jeito. Tanto se virou nessa vida, que virou contorcionista. Numa tarde, viu um leão, mas disse aos outros que era suçuarana. Viu de novo e de novo. O leão rondava o circo, sentia o cheiro de múmia, carne de sol. Juvenal. O mágico que perdera a magia há tempos, bem antes de encontrar Esperança, que ainda era criança, 12 anos, corpo de mulher.
Os olhos da Esperança eram retos, vazios, feito uma sala sem móveis com um único espelho, bem lá no fundo. Todos se viam como gostariam de ser. Difícil não se apaixonar, não se perder. O anão se viu grande, o leão se viu carcará, Zé Miúdo, miúdo.
Juvenal perdera a magia há tempos, há tempos já não se via. Esperança é que enxergava nele o caminho.
Corcova era um leão diferente, tinha um probleminha na coluna, uma curvatura, um apêndice, um cisto grande, uma corcova. Meio leão, meio camelo, desmantelo da natureza.
Zé Miúdo caminhava sem destino, até o destino colocar ele no circo. E no circo se virava. O anão era seu amigo, homem de muitas línguas.
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
CIRCO PALOMA 2: LUZIA

Luzia chorou como nunca havia chorado, chegou a molhar os pés. Sentia a falta de Juvenal, o mágico, o malandro. Aquele corpo embalsamado não lhe bastava, seco. Foi Juvenal quem encontrou Luzia, frouxa, trouxa na estrada. Ela aos tropeços, menina ainda, com seus 12 anos, sozinha. Restava ainda um resto de resto, de verde nos seus olhos. Carrega consigo impressa lá no fundo dos olhos a lembrança das cores saindo do pó. Sem forma, apenas cores se aproximando numa nuvem de poeira. Ele era a cor mais forte, vinha na frente, vermelho opaco, Juvenal. A última imagem. O que restava de verde vazou de seus olhos, misturaram-se as cores.
A seca era grande, a maior de todas. Secou esperanças, açudes e lembranças. Luzia esqueceu como se caminha. Lembrava apenas do caminho, mas faltava a luz, a cor. O Vermelho Opaco a conduzia, fora adotada como parte da trupe, das cores do circo.
Ele estendia uma corda no chão, fazia e refazia os caminhos. Luzia aos poucos reaprendera a andar sobre a corda. Somente sobre a corda. Um dia Juvenal amarrou a corda entre duas algarobas, bem esticada, longe do chão. Luzia caminhou confiante, e desde então, tornara-se a equilibrista Esperança.
A esperança na corda bamba já não é mais novidade.
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