O FOTÓGRAFO
Manuel de Barros
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Por fim, eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski - seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
CIRCO PALOMA 4: ZÉ MIÚDO E CORCOVA
Tem muita gente que já viu leão pelo sertão, mas disse que era suçuarana pra não ficar com fama de louco ou de mentiroso. Tinha pelo menos uns quatro entre Juazeiro e Paulo Afonso, tudo solto. Fugido de circo, comendo cabras e cobras. Corcova era um deles.
Zé Miúdo era grande, se virava de qualquer jeito. Tanto se virou nessa vida, que virou contorcionista. Numa tarde, viu um leão, mas disse aos outros que era suçuarana. Viu de novo e de novo. O leão rondava o circo, sentia o cheiro de múmia, carne de sol. Juvenal. O mágico que perdera a magia há tempos, bem antes de encontrar Esperança, que ainda era criança, 12 anos, corpo de mulher.
Os olhos da Esperança eram retos, vazios, feito uma sala sem móveis com um único espelho, bem lá no fundo. Todos se viam como gostariam de ser. Difícil não se apaixonar, não se perder. O anão se viu grande, o leão se viu carcará, Zé Miúdo, miúdo.
Juvenal perdera a magia há tempos, há tempos já não se via. Esperança é que enxergava nele o caminho.
Corcova era um leão diferente, tinha um probleminha na coluna, uma curvatura, um apêndice, um cisto grande, uma corcova. Meio leão, meio camelo, desmantelo da natureza.
Zé Miúdo caminhava sem destino, até o destino colocar ele no circo. E no circo se virava. O anão era seu amigo, homem de muitas línguas.
Zé Miúdo era grande, se virava de qualquer jeito. Tanto se virou nessa vida, que virou contorcionista. Numa tarde, viu um leão, mas disse aos outros que era suçuarana. Viu de novo e de novo. O leão rondava o circo, sentia o cheiro de múmia, carne de sol. Juvenal. O mágico que perdera a magia há tempos, bem antes de encontrar Esperança, que ainda era criança, 12 anos, corpo de mulher.
Os olhos da Esperança eram retos, vazios, feito uma sala sem móveis com um único espelho, bem lá no fundo. Todos se viam como gostariam de ser. Difícil não se apaixonar, não se perder. O anão se viu grande, o leão se viu carcará, Zé Miúdo, miúdo.
Juvenal perdera a magia há tempos, há tempos já não se via. Esperança é que enxergava nele o caminho.
Corcova era um leão diferente, tinha um probleminha na coluna, uma curvatura, um apêndice, um cisto grande, uma corcova. Meio leão, meio camelo, desmantelo da natureza.
Zé Miúdo caminhava sem destino, até o destino colocar ele no circo. E no circo se virava. O anão era seu amigo, homem de muitas línguas.
sábado, 16 de outubro de 2010
SOBERANIA
Soberania
Manoel de Barros
Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.
Texto extraído do livro (caixinha) "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, tomo X, com iluminuras de Martha Barros.
Manoel de Barros
Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.
Texto extraído do livro (caixinha) "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, tomo X, com iluminuras de Martha Barros.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Mauá na Praça
quarta-feira, 5 de maio de 2010
A rede
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segunda-feira, 3 de maio de 2010
Leia os muros!
Os homens inventaram as cidades, mas as cidades, por fim, reinventaram os homens. Erguemos cercas, depois muros que delimitam espaços e propriedades.
As cidades têm seu próprio tempo, envelhecem , se renovam. Os muros refletem essa dinâmica, trazem as marcas do tempo,dos conflitos, dos homens. Estive há pouco, no meio do mundo, que é dividido por uma grande muralha – ” a Muralha do Meio do Mundo.”

Fica na Paraíba, no Cariri. Ali, homens de outro tempo, anterior às cidades deixaram suas marcas, grafismos, com seu significado oculto no tempo. 700 anos? 1000 anos? Ninguém sabe ao certo.
De volta ao Rio de Janeiro passei a dar mais atenção aos muros e percebi que eles ganharam o ritmo das cidades e outras tantas funções que vão muito além de delimitar espaços e definir propriedades. Os muros definem também identidades e territórios ( lembrando que um território é um espaço, mas nem todo espaço é um território). Os muros são espaços de comunicação, de idéias, de arte e de conflito e disputas.
O que nos dizem os muros? É possível lê-los?
Nas cidades, a cor predominante é o cinza, nos prédios,viadutos,marquises e calçadas. Quebrando o monopólio do cinza, surgem os grafites reivindicando cores. Desenhos que interagem com pedestres e automóveis. Desenhos abstratos,
personagens, letras coloridas,”bombers”, lambe-lambe, cartazes, stencil. Palavras de ordem, de ironia, de amor, de inconformismo, que hoje estão ali, e amanhã já foram substituídas por outras palavras ou desenhos, por outros sentidos. Palavras de passagem, para leitores de passagem. E, como escreve Eduardo Galeano:”…somos muitos os que a cada dia comprovamos que as anônimas inscrições transcendem seus autores. Alguém, sabe-se lá quem, desafoga sua implicância pessoal ou transmite alguma idéia que lhe visitou a cabeça, ou desata a tomar as dores por si e pelos outros: às vezes esse alguém está sendo a mão de muitos”. E as paredes tornam-se assim a mais democrática de todas as imprensas.
Leia os muros! Escute os os muros!
As cidades têm seu próprio tempo, envelhecem , se renovam. Os muros refletem essa dinâmica, trazem as marcas do tempo,dos conflitos, dos homens. Estive há pouco, no meio do mundo, que é dividido por uma grande muralha – ” a Muralha do Meio do Mundo.”

Fica na Paraíba, no Cariri. Ali, homens de outro tempo, anterior às cidades deixaram suas marcas, grafismos, com seu significado oculto no tempo. 700 anos? 1000 anos? Ninguém sabe ao certo.
De volta ao Rio de Janeiro passei a dar mais atenção aos muros e percebi que eles ganharam o ritmo das cidades e outras tantas funções que vão muito além de delimitar espaços e definir propriedades. Os muros definem também identidades e territórios ( lembrando que um território é um espaço, mas nem todo espaço é um território). Os muros são espaços de comunicação, de idéias, de arte e de conflito e disputas.
O que nos dizem os muros? É possível lê-los?
Nas cidades, a cor predominante é o cinza, nos prédios,viadutos,marquises e calçadas. Quebrando o monopólio do cinza, surgem os grafites reivindicando cores. Desenhos que interagem com pedestres e automóveis. Desenhos abstratos,
personagens, letras coloridas,”bombers”, lambe-lambe, cartazes, stencil. Palavras de ordem, de ironia, de amor, de inconformismo, que hoje estão ali, e amanhã já foram substituídas por outras palavras ou desenhos, por outros sentidos. Palavras de passagem, para leitores de passagem. E, como escreve Eduardo Galeano:”…somos muitos os que a cada dia comprovamos que as anônimas inscrições transcendem seus autores. Alguém, sabe-se lá quem, desafoga sua implicância pessoal ou transmite alguma idéia que lhe visitou a cabeça, ou desata a tomar as dores por si e pelos outros: às vezes esse alguém está sendo a mão de muitos”. E as paredes tornam-se assim a mais democrática de todas as imprensas.
Leia os muros! Escute os os muros!
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HQ é coisa séria…
Neil Gaiman que me desculpe, mas tirei da gaveta um velho papel amassado e carcomido com um pequeno texto que escrevi há uns dez anos. Trata-se de uma adaptação livre, uma releitura, mal feita (e mal cheirosa) de uma parte de “Prelúdios e Noturnos”, do primeiro Arco da série Sandman, publicado no Brasil em meados da década de 90.
Sonho e Esperança são irmãos. Numa tentativa de desorientar a Humanidade, a Esperança foi raptada e separada do Sonho. Viver sem esperança é um pesadelo. Seguindo os rastros da Esperança (a esperança sempre deixa rastros), o Sonho chegou até as profundezas do Inferno. O Sonho tinha um nome, chamava-se Morpheu. O barulho era literalmente infernal, gritos de agonia e de dor tomavam todo ar. Ar?! Demônios, demônios, demônios de todas as hordas do inferno cercavam Morpheu, o mestre dos sonhos. Milhões deles em formação de batalha fitavam-lhe nos olhos. Olhares cheios de certeza. Um poderoso senhor do inferno levantou sua voz acima de todas as outras e, imediatamente, nada mais foi ouvido. Um silêncio também infernal. Esse mesmo demônio, cheio de ousadia, quebrou o silêncio e lançou uma pergunta a Morpheu:
- Você não tem nenhum poder aqui, que poder tem os sonhos no inferno?
Outra vez o silêncio…
A reposta veio em forma de pergunta, com a suavidade de um sonho e a força de um pesadelo:
- Vocês dizem que eu não tenho poder? Talvez tenham razão, mas dizer que os sonhos não têm nenhum poder aqui?
- Digam-me, perguntem-se…
- Que poder teria o inferno, se os prisioneiros daqui não pudessem sonhar com os céus?
Em seguida, nenhuma palavra foi ouvida, no entanto, a resposta foi dada. Lentamente, milhares de demônios baixaram seus olhares e suas armas, aos poucos o caminho foi sendo aberto.
Com passos firmes, o senhor dos sonhos prossegue sua jornada transitando livremente entre céus e infernos, afinal, sonhos e pesadelos são feitos da mesma matéria.
A humanidade com esperança acompanha os passos do sonho…
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